Eu tava muito feliz em vir pra Porto Alegre. Saía de Londrina às seis da manhã, chegava aqui oito e meia. Uma maravilha. Dava pra dormir um monte antes do almoço, dar uma volta de tarde e ainda encher a cara na cidade baixa antes de dormir. E aí eu poderia contar os acontecidos desde quinta-feira. Mas não foi isso que aconteceu.
Acordei as quatro e meia da manhã, coloquei as últimas coisas na mala e fui pro aeroporto. Sabia que o voo não sairia as seis. Tinha chovido a noite toda e ainda não tinha parado, mas achava que até umas nove dava pra sair. E foi uma bela manhã nublada de aeroporto fechado, com direito a notícia no GloboNews e duas mudanças de conexão pra um voo que era direto.
Primeiro chamaram para avisar que teria uma conexão para Curitiba. Saía de Londrina assim que o aeroporto abrisse e vinha de Curitiba Para Porto Alegre as 11:45, hora em que eu estava perambulando pelo aeroporto - que ainda não tinha aberto - com a Ju, que ia pora Nova York. Mudaram de novo a conexão, desta vez pra São Paulo. Cheguei no guichê da Gol e o cara disse: "Marina Dias, você ia pra Porto Alegre?" E aí eu comecei a rir, porque nessa hora eu imaginei que a continuação da frase seria: "Você não vai mais não, vamos te mandar pro...pro Amapá! Tenha uma boa viagem!" Ele só queria dizer que assim que o aeroporto abrisse eu iria pra São Paulo pra pegar um voo que vinha pra cá às 14:50.
Não aconteceu. Minha mãe me levou um pacote de bolachas e um carregador pro celular (ela me ligava de hora em hora, e eu trocava mensagens com os meus irmãos o tempo todo). Comprei uma revista e a sala de embarque ficava cada vez mais cheia. Não tinha nem cadeira sobrando nem parede pra encostar. Uma e quinze da tarde. O aeroporto de Londrina abriu. Só uma palavra descreve o que eu senti naquela hora: emoção. Fiquei e-mo-cio-na-da. Meu voo sairia uma e meia, mas saiu às três e o pessoal da Gol não marcou outra conexão em São Paulo, disse que o pessoal de lá resolvia (empurrou na cara dura o serviço pra galera de São Paulo, que - é lógico - estava sobrecarregada).
Quatro da tarde, São Paulo. Fiquei uma hora pra conseguir que me colocassem em outro voo - devia ter vindo em um que saía de lá às cinco e vinte, mas como o pessoal da Gol de Londrina empurrou o serviço, eu tive que esperar um voo que saía as 18:50 e já estava atrasado. A única coisa boa dessa história foi ver a minha irmã que trabalha perto do aeroporto de Congonhas. Não que dê pra matar saudade em uma hora, mas já é alguma coisa. Quando eu cheguei na sala de embarque, tinham mudado o voo pras 19:10. A aeronave pousaria as 19h em ponto, hora em que a moça do som anunciou que o aeroporto de Congonhas se encontrava fe-cha-do para pouso. Uma puta chuva lá fora, omeu voo pousou em Campinas e já nem dava pra pedir pra minha irmã voltar. Ela devia estar em algum engarrafamento alagado. O aeroporto fechou pra pouso e decolagem, tive vontade de chorar, comprei um cartão telefônico porque já não tinha crédito pra ligar pra números que não fossem da Claro e liguei pro meu cunhado, dizendo que talvez ele tivesse que ir me buscar. Eu não ia aguentar dormir no aeroporto. Já era difícil ficar mais de cinco minutos em pé. Encontrei uma cadeira estofada pra sentar e comecei a escrever um rascunho desse texto. Um gringo com um chapel Panamá, que visívelmente voltava do carnaval perguntou se podia se sentar do meu lado. Charmosíssimo, não fosse estar se lambuzando num cachorro quente nojento. Continuei escrevendo. A mulher do som disse que o aeroporto estava fechado só para pouso, de novo. O gringo disse que não tinha entendido. "Não fala bem portugues, que que rola?" Tá fechado só pra pouso. "Que isso?" Os aviões não conseguem chegar por causa da chuva. "Então tá aberto pra nós?" Só se o avião em que você vai já estiver aí. "Ah, tá. " E terminou de comer o cachorro quente.
Umas oito e meia o aeroporto abriu. Eu já estava quase sem crédito, o celular quase sem bateria. Entrei no avião as nove em ponto, quando minha irmã - que tinha passado o dia todo esperando - me ligou. Fiquei com um centavo de crédito. A essa altura, já tinha conhecido umas pessoas que estavam na mesma situação que eu. Eram duas moças casadas, que eram das redondezas de Londrina e moravam aqui com os maridos. Elas tinham que trabalhar na quinta-feira cedo. Pelo menos eu estava de férias. Nove e meia e o avião ainda não tinha saído. Tinha um moço bonitinho sentado do meu lado - só éramos separados pelo corredor e tinha um lugar vago do lado dele - até que veio a aeromoça e perguntou se ele se importava em dar lugar pra um casal que estava separado. E veio o casal. Era o cara mais chato do mundo. Devia ter chegado ali há, no máximo, umas duas horas e estava reclamando do atraso. Além disso, usava umas sandálias estranhas e lendo um livro em inglês sobre pássaros e explicava tudo pra mulher fazendo questão que o avião todo visse que ele sabia muito do que tava falando.
Quer dizer, fazia quinze horas que eu estava fora de casa, super cansada, meu dia tinha sido um horror, o avião não saía, a Gol me colocou no último banco e tinha um PhD em chatice do meu lado. Eu não ia me surpreender se tivessem me colocado num voo pro Amapá. Enquanto o comandante pedia desculpas pelo atraso, eu já estava surtando, dizendo que se tivesse vindo de Londrina pra Porto Alegre correndo, já tinha chego. Que sinto muito, comandante, mas eu acordei as quatro e meia da manhã, me passaram de um voo pra outro como se fosse um saco de batatas e não tô pra aceitar desculpas agora não. Levanta logo essa merda que eu pretendo estar em Porto Alegre antes da meia noite.
Onze horas e o avião chegou aqui. Minhas malas chegaram antes. Como se tudo não estivesse suficientemente cagado, vi o Flávio do último Big Brother - aquele ruivinho que tinha uma amizade suspeita com o Max - na sala de desembarque, esperando pra ser reconhecido. Minhas malas demoraram pra passar e eu já nem lembrava quais eu tinha trazido. Com quinze horas de atraso, eu cheguei. Minha irmã, meu cunhado e um amigo estavam me esperando. Eu nem acreditava que tinha chego. Pensei umas três vezes em voltar pra Londrina, pedir desculpas pelo furo e ficar lá quieta no meu canto, mas não. Tô aqui e tá legal pra caramba.
Depois eu conto mais.