sábado, 23 de janeiro de 2010

Da abelha que entrou no copo errado.

Voava, como em todos os dias de sua vidinha de operária. Sempre atrás daquele pó amarelo que tem nas flores, o pólen. Também era atraída pelas coisas doces como o mel que fabricavam em sua colméia. Vivia se perdendo nas sobremesas dos almoços de família, no sorvete das crianças no parque, na barraca do caldo de cana. Sobretudo nesta época do ano.
Voava. Nunca deve ter se questionado sobre o fato de ser só uma operária e ter que morrer como tal. Não deve existir nenhum Karl Marx no mundo das abelhas. São insetos e insetos vivem pelo instinto. Quem se mete a pensar e revolucionar e arrumar problemas pra cabeça que jamais serão resolvidos é o ser humano. Abelha não tem disso, não.

Voava entre humanos. Só precisava que um pouco de pólen grudasse em suas patas e pronto. Voltava feliz pra colmeia e não enchia mais o saco de ninguém. Fácil. Os humanos, tão grandes e inteligentes poderiam ajudar. Voou pelas flores da casa - eram muitas! Devia ser a colmeia de uns humanos que gostam muito do perfume das flores. Eles fazem muito bem, pensou. Talvez as abelhas não saibam que as flores também servem para enfeitar, presentear, fazer cosméticos, perfumes e que são a maior diversão da minha prima, que colhe flores depois amassa e passa no rosto gordinho para ficar linda, como ela mesma diz. As abelhas não sabem que as flores são estudadas, que na escola os humanos fazem provas sobre o gineceu, o androceu, o estame, a corola, que sobre elas são escritos livros - consigo ver uns cinco daqui onde estou sentada. Aquela abelha que achou que estava em uma colmeia de gente que gostava de flores, acertou. Ela estava na casa de alguém que dedicou boa parte da vida ao estudo minucioso de todos os tipos de plantas. Mas as abelhas não devem saber que isso existe, então não importa.

Durante seu voo, começou a rondar um lago estreito e fundo de um líquido escuro e borbulhante. tinha certeza de que aquilo era muito doce. Instinto de abelha, vai entender. Deve ter umas oito colheres de açúcar nisso aí, pensou. Para uma abelha, oito colheres de açúcar é muito - e para as celulites das humanas também. A pobre abelhinha, sem ter ideia do perigo que corria, mergulhou naquele lago escuro, borbulhante e delicioso. Agitava as patinhas de felicidade, até que percebeu que com as asas grudentas daquele jeito, seria difícil sair dali.

O lago começou a se mexer. Primeiro começou a balançar levemente, depois foi derrubado num lugar escuro e não muito doce, mas quente. Uma cachoeira estava por vir e a pequena abelha se desesperou. Sabia que seria impossível fugir. Suas asas não batiam. Ou morria por conta do que estaria por vir, ou soltava seu ferrão e morria também. Enquanto ela era jogada de um lado pro outro, sem conseguir pensar no ferrão ou em qualquer outro jeito de sair dali, vieram duas coisas brancas, uma de cima e outra de baixo e a esmagaram. Duas vezes, sem dó.

Era um desses almoços de fim de ano, família aqui em casa. Não consegui almoçar direito por causa do calor e da ressaca. Estava comendo qualquer torta gelada que tinha na geladeira porque além de tudo, polenta com frango não me desce - por mais que isso seja quase negar minhas raízes e a cara de comedora de polenta, como dizia minha bisavó. Enquanto conversava com meus primos, tomei um gole geladíssimo de Coca e senti algo que não era líquido passear pela minha boca. Sem pensar, dei duas mastigadas, me lembrei que pouco tempo antes uma abelha rondava meu copo, cuspi desesperada aquele corpo estranho e fiquei com a boca aberta e a lingua pra fora, pra não ter perigo de, sei lá, engolir o ferrão enquanto gritava por socorro (e para fazer meu drama diário também).

A mesa toda parou para ver meu desespero. Meu primo riu quando viu a abelha atirada na toalha. Ainda sem fechar a boca, fiz uma autópsia na coitada. O ferrão ainda estava lá, no corpo morto do inseto intruso. Enquanto todos riam da minha cara, minha mãe contava a história de uma amiga da praia, uma mulher muito faladeira que teve a ponta da língua picada por uma abelha enquanto falava sem parar e tomava sua caipirinha de abacaxi. Por isso eu não falo muito.



1 comentários:

  1. Adorei o texto!!! hehehehe..
    "Quem se mete a pensar e revolucionar e arrumar problemas pra cabeça que jamais serão resolvidos é o ser humano. Abelha não tem disso, não." É, né?!
    :D

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