A esposa estava grávida. Era o quarto bebê. Ele, que gostava de novidades, chegou em casa e reuniu a família na cozinha como se esperassem um grande acontecimento. A coisa importante que ele queria mostrar era uma chupeta. Isso. Depois de três filhos, algumas dúzias delas já deviam ter passado pela casa. Todo mundo sabia o que era, até que ele apagou a luz.
Gostava de novidades. Trabalhava na maior loja de departamentos da cidade. Era simples, mas gostava do novo. Foi o primeiro da rua a comprar - depois de certa economia - uma tv a cores. A novidade da vez não era a chupeta em si, mas a luz que emitia quando ele apertou o interruptor.
É uma pena não conseguir provocar em quem lê esses dois parágrafos aí em cima a mesma reação que eu tive quando vi meu tio contá-los com os olhos transbordando a saudade longa e doída de seu pai. Quase não me lembro do meu avô, mas a saudade que eu tenho dele aumenta a cada história que eu escuto. Talvez seja herança dele esse gosto pelas pequenas coisas - se bem que na década de 50 uma chupeta fluorescente devia ser um evento.
E eu continuo carregando essa saudade que vai me machucar pra sempre, um pouco mais a cada dia. Essa saudade que vai me matar a cada história e jamais será saciada. Uma saudade que se mistura com a decepção de não ter nascido uns cinco anos antes, só pra poder dizer aos meus filhos que eu não sei se existirão que eu me lembro que um dia o meu avô...
0 comentários:
Postar um comentário