domingo, 10 de janeiro de 2010

Passou.

Fazia tempo essa história de casamento. Até que bateram o martelo. Nove de janeiro de 2010. Nos últimos seis meses, minha casa girou em torno desse casamento. Casamento duplo. Uma noiva em cada cidade, nenhuma em Londrina. As meninas ajudavam como podiam, mas minha mãe resolveu quase tudo. Aquilo era o sonho dela também. Casar as gêmeas. Minha tia Ana não teve filhas pra casar, mas sempre fez de tudo pela gente e fez questão de participar ativamente de toda a preparação.

Não teve uma reuniãozinha de família sequer no ano passado em que não se tocava no assunto "Casamento das Gêmeas". Todo mundo deu pitaco, todo mundo queria saber se ia entrar uma de cada vez ou as duas juntas. E a família, como sempre, se metendo a trabalhar. Uma das primeiras ideias foi a de fazer porta guardanapos. Resolveram que eles seriam as lembranças da festa. E que seriam flores de tecido. De cor lilás. E que seriam feitas a mão, com um tecido meio transparente. A Clarissa queria que o suporte da flor fosse uma argola de acrílico encapada com fita de cetim. Eu disse milhares de vezes que a argola era uma grande besteira, e que melhor mesmo era só a fita. Carol concordou. Mas a Clarissa queria a argola. E eu falei tanto, mas tanto, mas tanto que deixaram só a fita. E eu até tinha uns argumentos, tipo a fita dá pra amarrar a flor no cabelo, a argola não.

Ajudei a escolher as músicas da igreja, o Fábio me deixou com a responsabilidade de escolher com que música ele entraria. "Confio em ti, coloca o que tu quiser", ele disse. E quis que fosse surpresa. All you need is love na saída. O Gaúcho acabou descobrindo antes a música. "Bah, valeu mesmo. Eu não esperava".

Ajudei a Clarissa escolher o vestido, passávamos dias no site da Rosa Clará, inclusive era isso que estávamos fazendo quando eu passei no vestibular. Não gostei do que a Carol escolheu primeiro, depois ela mudou o modelo. O meu foi inspirado num Diane Von Furstenberg, mas acabou ficando diferente. Quando os costureiros entregaram, eu tinha achado que não era tudo aquilo que eu imaginava, mas ficou lindo, no fim das contas. Minha mãe demorou pra escolher o vestido dela e foi pra São Paulo comprar todos os tecidos e rendas.

Decidiram fazer doce. Não gostei da ideia. Sabia que isso ia ser feito dias antes do casamento e na minha casa, o que ia tornar as coisas mais difíceis. Começou na terça-feira. Umas sete mulheres pela casa derretendo chocolate, pintando nozes, enrolando e banhando os doces - que derretiam por causa do calor -, e falando, falando, falando. Foi até sexta. E eu tinha que fazer aquele clipe cheio de fotos que faz os noivos chorarem.

Minha avó fez os vestidos das daminhas. No começo, eram três meninas e dois meninos. Depois veio uma prima. E chegaram mais duas. O Enzo desistiu. Na quarta feira, chamaram a Ana Luiza - minha mãe foi daminha da avó dela, a mãe dela, da minha, as noivas, da mãe dela e ela das noivas. Deu pra entender? As duas que chegaram não sabiam se iam. Uma era certeza que não, a outra resolveu que sim. Na sexta-feira, o Enzo resolveu que ia. Minha avó fez sete vestidinhos, um às vesperas.

Tive medo da minha mãe ter um treco, mas eu surtei antes. Desde que acabaram as aulas, eu não tive férias. A casa sempre cheia de gente e quando não estava, eu dava um jeito de ir pra farra. Nos últimos dias, saí pra andar sozinha no centro. Parava, tomava uma água, olhava o movimento, tentava não pensar em nada. Tava angustiada. No churrasco da véspera eu fui chorar no cantinho, só arrumei um motivo besta pra isso, mas nem era verdade. É que eu tava precisando transbordar mesmo, pra ficar mais leve. E funcionou. A angústia sem motivo foi embora. Meia hora depois, tava lá com os primos fazendo bagunça, dançando, sambando e agitando a foto da escadinha. Fazia tempo que os onze netos - que viraram treze e eu tenho pensado muito nisso nos últimos dias - não se reuniam. Eu não consegui dormir. Tinha que escrever duas cartas muito difíceis, sem mais do mesmo. Comecei, fui até onde dava, as três da manhã. Acordei às sete, rolava na cama, fui às oito pro quarto da minha mãe. Já estava vazio. Rolei na cama, cochilei um pouco. Continuei as cartas. Chorava. Fiz mais coisas que tinha pra fazer, tomei banho, saí com a Carol, almocei bem pouco, fui no salão arrumar as unhas que eu estraguei abrindo um cadeado a machadadas.

E precisava dormir. Acordei antes do despertador, me arrumei pra ir pro cabelereiro, vi se estava tudo, tudo no lugar. As noivas já estavam se preparando, com aquele monte de bobes nos cabelos. Clarissa tava nervosa, Carol treinava com a Clá o que elas tinham que falar, tia Ana sempre na dela, minha mãe teeensa e eu agilizando a vontade da noiva. "-Edu, traz aí que a noiva quer. -Vai gelo?" Escova, muito pó na cara, maquiagem bonita, não era bem assim que eu queria o cabelo, mas tá lindo. Vai de óculos, mãe. Desandei a falar de ansiedade, o buquê da Clá era mais pesado que ela, Carol arrumando o cabelo, Clarissa quase pronta. Vamo, mãe.

Precisava comer qualquer coisa, abotoar aquele ultimo botãozinho difícil da camisa do Dani, pegar tudo e...vestido. Colar, brinco, anel, desodorante, perfume, sapato, o Engov eu esqueci. Tava cedo. Fui ouvir música, assistir o fim do último capítulo da novela, tensa. Minha mãe tava tensa. Carro, amo-te muito como as flores amam e quase não me segurei. Primas novas lindas, carro, volta no quarteirão, igreja, cadê meu par, muito padrinho, fila, bagunça, Rafa to nervosa, quadro, entrada.

Fui me dar conta do que tava acontecendo na porta da igreja. Agarrei na mão gorda do Rafinha e fui pra frente, morrendo de medo de tropeçar. É que essas coisas sempre acontecem comigo. Os olhos encheram d'água quando minha mãe entrou com os pais dos noivos. Peguei o lenço quando tocou "Bridge over troubled water", do Elvis, que eu escolhi pro Gaúcho entrar. Depois as crianças. No fim das contas, os dois pequenos que eram certeza de entrar com as alianças não quiseram ir. Minha prima nova, que não queria entrar, entrou. Chorei mais. Quem tava em volta também. A família toda. Minha prima Mari, que tem um bebê na barriga, soluçava. E as noivas. O trompete que eu achei exagero tocou. A porta abriu. Marcha nupcial. Tava achando demais meu pai entrar certinho. Levantava os braços das meninas e chacoalhava. Falava umas coisas, conversava com os convidados. Era ele ali. E quem conhece sabe do que eu to falando, sabe como foi emocionante e que não podia ser mais bonito. Fazia tempo que eu não chorava e ria ao mesmo tempo.

Ri durante a cerimônia toda com as coisas que o Rafinha me dizia no ouvido. Cutuquei ele várias vezes, pra parar de fazer bagunça. As crianças ferviam ali na frente. E demorou. Tinha que abraçar todos os padrinhos. Tinha que fazer um corredor no fim pros noivos passarem. Cheguei na festa e já tinha um monte de gente. Não parei durante a primeira hora. Sentei pra comer, senão desmaiava. Delícia de frisante. Fiz o social, tirei fotos enquanto tava arrumada, ajudei a cortar o véu da Carol e os noivos entraram. Minhas irmãs estavam lindas! E felizes. A Carol com aquele olhão e a Clá ficando com os olhos apertadinhos ao sorrir - o que ela faz o tempo todo. Tava boa a janta, rolou a choradeira generalizada no clipe, não dancei valsa e a partir daí, foi só ladeira abaixo.

Coloquei o chinelo de laço, parti pro whisky e o cabelo começou a desmoronar. Fiquei bêbada sem saber, mas era mais felicidade do que álcool. O Pablito tentou dançar forró comigo, dancei loucamente Stones, Ramones, Strokes e Pixies, a Vivi deu um mosh e foi carregada pela galera, meu colar tava embolado no cabelo, a Clá esvaziou garrafas de água na minha cabeça e na dela também. Tomei banho de chuva com a Vivi e depois sozinha e tava achando muito, muito legal. Só não pulei nas poças d'água pra não cagar todo o vestido. Me joguei no sofazinho pela primeira vez, fui tirar o arranjo do cabelo da Clá e tive que pedir ajuda porque tava tudo embolado, desmanchei meu penteado, prendi o cabelo, a Clá também. Minha mãe caiu, Clarissa caiu, nem escorreguei, só dei uma cabeçada na Myriam e depois em outro lugar que não lembro onde. E derrubei whisky nos braços. E trombei em alguém que me fez derrubar café em mim, sem pegar no vestido.

Me joguei no sofá de novo com a formosura que é a Chiara. E tava todo mundo sem decência e dignidade. Já tinha pouca gente. Eram quase cinco da manhã, eu achando que eram umas três. Quatro, no máximo. Os djs começaram a querer ir embora, tocaram a última e depois todo mundo começou a cantar em coro. O Gaúcho pediu pra tocar Strokes, a última. Eles não tinham, eu tinha. Subi lá e toquei. Hard to explain. Eu queria ficar mais, todo mundo queria. Vamo pra feira, Ana P. Pastel da feira lá lalalalalalalalalaa. Pastel de carne lá lalalalalalalalalalalalalalalala. Aceita passe lá lalalalalalalalalalalalalalala. Sofá, de novo. Agora definitivamente. Não vamos pra feira, tá chovendo. Mais chuva.

E eu cheguei em casa. Tomei banho, mas não tive coragem de lavar o cabelo. Só desembaracei, porque se dormisse daquele jeito, era capaz de não me acharem no dia seguinte. Saí do banho com rímel até o queixo, linpei o borrão que era a minha cara, tomei um dorflex e fui dormir. Seis e meia da manhã. Os passarinhos já estavam cantando. Um beijo pra quem inventou os tampões de ouvido.

Foi lindo, sensacional. Passou super rápido e eu não queria que acabasse. Não tem nada que me deixe mais feliz do que lembrar dos sorrisos da Carol e da Clá, do Adriano e do Fábio. E dos meus pais. E de todo mundo que foi. Vai ser foda superar essa festa.

3 comentários:

  1. eu vi o amor ali, várias vezes! =)
    me emocionei qdo a tia do Adriano leu "Carta aos Corintos".
    E se não tivesse amor, eu nada seria!

    =)

    ResponderExcluir
  2. Sei que ficar agradecendo, agradecendo e agradecendo chateia mas eu preciso dizer isso porque sei do esforço de todos vcs, e espero poder retribuir isso fazendo com que o sorriso da Cla esteja sempre lá, fazendo seus olhinhos se espremerem como vc escreveu! E Amarei todos vcs como verdadeiros amigos!

    "She how they shine
    If You need a friend
    I´m sailing right behind
    Like a bridge over trouble water."

    Contem comigo sempre!!

    Beijão

    ResponderExcluir
  3. Agora que eu vi... escrevi errado, não é "she" e sim "see"! Alright?!! Bjs

    ResponderExcluir