E eu nunca liguei pra carnaval. Teve aquela época dos bailes nos clubes, mas eu devia ter uns quatro anos. Gostava mesmo de quando meu tio tinha a chácara que era banhada pela represa. Passava uma semana naquele meio do nada e não me interessava saber das coisas. Carnaval sempre foi um feriado a mais, desses que a gente espera chegar pra matar a saudade de alguém que vem de longe. Desses que a casa fica toda arrumada pra esperar a visita e a cozinha se enche com todas aquelas vozes e abraços. Gosto de quando minha irmã vem, chega bem cedo e eu acordo escutando a voz dela a dois cômodos de distância.
Esqueci o que era pra escrever. Nem ia, tô aqui por pura força do hábito e as circunstâncias não são das melhores. E tava muito legal, sabe? Piscina o dia todo e de noite também, aquele torrão de sempre, uns chopes, a arte de fazer as batidas mais mulherzinha do Brasil sendo aprimorada ao longo do dia, boas risadas e eu não precisava de mais nada. Talvez voltar pra casa de madrugada e tomar um Dorflex, porque este ano eu aprendi que piscina com crianças cansa, causa dores musculares horríveis e rende ótimas pérolas - "Você já percebeu que todo dia chega uma hora que escurece?"
E olha só, não se desespera, tá? Tá tudo bem, mas arrombaram a porta da sua casa, não levaram nada, só a porta mesmo. Tão bonita aquela porta. Toda estraçalhada com um homem sentado do lado quando eu cheguei, às três e tantas da manhã, mais vermelha, andando mais torto e com o cabelo quase verde. Deu vontade de chorar e eu tive a certeza de que chegou a hora de ir pra um lugar mais seguro. Deixar pra trás a cozinha gigante, o quarto que foi meu desde sempre e a possibilidade de dar várias festas no quintal.
Foi uma madrugada horrível, de três ou quatro pesadelos. Acordei cedo pra ver se estava tudo bem, se eu não tinha causado uma discórdia homérica ou perdido meu pai. Não. E o homem continua sentado do lado da porta estraçalhada.
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Não tô pra festa hoje. Bom carnaval pra vocês.
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